Projecto Matilha

Ricardo Romero dá as mãos e as latas por uma causa de quatro patas – é o autor do Projecto Matilha. O seu trabalho está espalhado por Leiria e não só, é possível dar de caras com os seus cães em várias cidades pelo mundo. Pretende “tornar imortal o melhor amigo do Homem, despertando para sentimentos e características tão vulgares e comuns nos animais, em especial nos cães, como a lealdade, companheirismo e gratidão”. Moonspire é um dos seus “parceiros no crime” e mostra agora algumas das cores deste artista cheio de lata.

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Como surgiu este projecto?

Quando vim morar para Leiria procurei arranjar uma motivação para não deixar de pintar. Ao mesmo tempo, a minha sensibilidade e preocupação em relação aos animais foi aumentando. Seguindo esse feeling, fui desenvolvendo várias intervenções com figuras de animais, mas parecia-me tudo muito disperso e comecei a sentir a necessidade de dar um sentido, de ter um fio condutor e uma razão de ser para o que estava a fazer. Fui amadurecendo ideias, desenvolvendo mais trabalhos e cheguei ao que é hoje o conceito Projecto Matilha… um ponto de chegada, mas também um ponto de partida para novos horizontes.

Onde podemos encontrar trabalhos da Matilha?

Em Portugal, de Norte a Sul do país, e lá fora também. Uns ainda existem, outros não. A partir do momento em que o projecto começou a ganhar dimensão, tornou-se possível encontrar trabalhos meus no Brasil, em Angola, mesmo não tendo estado lá fisicamente.

Em que formatos encontramos os produtos deste projecto?

Em tantos. Desde t-shirts, a malas… O Projecto com conceito mesmo definido, como Projecto Matilha, é relativamente recente. A partir do momento em que nasce o sonho de viver exclusivamente do projecto (e não da pintura), tive de criar outros suportes para que as pessoas pudessem ajudar-me neste caminho. Há, em Portugal, muita dificuldade em perceber quem vive de causas, mas se tu abdicas de tudo na tua vida por uma causa, porque não viver disso? Isto faz muita confusão à mentalidade portuguesa. As pessoas não têm noção das propostas que recebo e tenho de recusar – só pinto coisas relacionadas com o projecto.

De que forma é que este projecto já te desafiou?

Sou desafiado todos os dias. O meu maior desafio é conseguir mudar as consciências das pessoas.

Já tiveste problemas com a autoridade?

Tantos! Eu pinto desde os 13 anos e tenho 33. Quando comecei a pintar, o “jogo” era diferente. Pintávamos na rua e todo esse lado ilegal vinha mais ao de cima. A partir de 98 a minha relação com a arte de rua foi mudando aos poucos. Ganhei uma visão mais séria das coisas, e a minha preocupação com o espaço público e tudo o que o envolve ganhou uma dimensão diferente. Vivia em Évora, uma cidade em que toda a gente sabia quem é que pintava. No entanto, nunca pintei no centro histórico. Hoje em dia, faço uma crítica ao graffiti. Preocupamo-nos tanto com o ego, com o espalhar do nosso nome, que nos esquecemos de tudo o resto. É por isso que não assino.

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Como reagem os Leirienses ao teu trabalho?

Eu sempre disse que Leiria era o melhor sítio para este projecto funcionar. As pessoas de cá são diferentes das de Évora, por exemplo. Os leirienses estão sedentos de cultura e não têm, a priori, grandes preconceitos. Toda a gente conhece o meu trabalho cá. O caminho das galerias é um mal necessário para poderes subsistir, mas é na rua que as pessoas te conhecem e te julgam. É aí que procuro que as mensagens passem. Por outro lado, se foges ao que é politicamente correcto, é complicado.

Das opiniões que recebo, as pessoas gostam e percebem a mensagem. Uma das coisas que procuro em Leiria é tentar dar vida a espaços degradados. Quero chamar a atenção das pessoas não só para a causa, mas também para esses espaços abandonados. Já encontrei páginas com muitas fotos do meu trabalho. As pessoas gostam, acho que percebem que é algo que lhes estou a dar – aí está a diferença na intervenção na rua.

És fã do artista da cena leiriense P.H.?

Não sou porque, de forma involuntária, quase acabou com o meu projecto. A mensagem dele acaba por ser vazia, e é isso que tento combater todos os dias com esta iniciativa. As cenas imediatas não fazem sentido para mim. Na rua existem leis, e quem trabalha na rua tem de respeitar o espaço comum. Há um código. Por exemplo, só se pinta por cima de outro trabalho se for para fazer um trabalho melhor. A arte urbana é uma coisa muito mais vasta que o movimento do graffiti e pouca gente sabe disso.

Que conselhos lhe darias?

Primeiro que tudo, que aprendesse a escrever. Dizia-lhe também para ter essa tal consciência do espaço público. A partir do momento em que a arte é conceito, até podem dizer que o trabalho dele é mais artístico do que o meu. No entanto há, da parte dele, apropriação do espaço público.

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Tens histórias engraçadas que possas partilhar com os leitores?

Uma das últimas que me aconteceu foi na zona de Lisboa. Eu e um amigo, o Ivo, estávamos a pintar uma fachada cada um e só tínhamos uma máquina (para um prédio com 15 metros de altura). Não podíamos deixar a máquina no meio do bairro, então tivemos de arranjar um sítio para a esconder. Conseguimos autorização para deixar a máquina no parque de estacionamento subterrâneo de um supermercado, onde ficou durante a noite. O parque tinha uma rampa inclinadíssima. No dia seguinte, quando lá chegámos para ir trabalhar, a máquina não saía de lá. Clientes a quererem entrar, uma máquina ali… Lá tivemos de arranjar maneira de mandar vir um senhor com um guincho para tirar a máquina. Foi um stress brutal.

Noutra vez, estava a pintar no Alto do Vieiro e a ser filmado para um documentário. Tinha visto a parede na noite anterior e estava tudo bem, mas no dia seguinte estavam vários Mercedes encostados à parede. Fui ter com o senhor do stand e perguntei se ele podia ajudar, e ele já conhecia o meu trabalho. Desviou os carros todos logo. Passado algumas horas, o senhor ainda estava convencidíssimo que tínhamos autorização para lá estar. Parou outro senhor para tirar uma fotografia comigo e tudo.

Perspectivas futuras para o Projecto Matilha?

No futuro quero trabalhar sobretudo em projectos dentro do Projecto Matilha. Vou continuar a pintar na rua, em várias cidades. Mas o futuro passa por trabalhar com outras entidades para inserir o Projecto na sociedade de uma forma cada vez mais directa. Pretendo envolver o máximo de pessoas possível.

Making of "Veste a Matilha" por Mónica Bárcia | Fotografias de Carolina Miguel (aqui)

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