Lisa Teles e o paradigma do medo

rsz_luzes-1-10                                                        Fotografia de Cátia Marcelino

Algumas pessoas nascem com jeitinho para desenhar. Depois, há pessoas como a Lisa que nos fazem sentir inúteis e sem qualquer talento nesta vida. Licenciada em Design Gráfico, a designer, e ilustradora e autora esteve à conversa com Moonspire sobre a inspiração que a levou a criar a Escaravelho, uma editora independente, e a evidenciar paradigmas entre a sociedade e o insecto. Trabalhadora como a formiga, persistente como a barata e exploradora como a borboleta, Lisa Teles é um dos nomes mais promissores no panorama artístico actual.

Quem é a Lisa Teles?
Tenho 26 anos e nasci no Luxemburgo. Formei-me em Design Gráfico e Multimédia nas Caldas da Rainha e sempre estive ligada ao mundo das artes. Sempre fui muito curiosa! Desde miúda que adoro explorar formas e tintas e sujar a casa. Sempre desenhei, sempre tive pincéis e montes de materiais. Quando não tinha material, inventava. No curso, segui a vertente de design gráfico porque nunca gostei de estar agarrada a computadores. Sempre senti mais paixão por técnicas como a gravura e a serigrafia. Prefiro explorar técnicas que não necessitem do auxílio de uma ferramenta digital: Como é que eu posso reproduzir uma imagem ou uma mensagem sem ter de utilizar um suporte tecnológico? Não me insiro em nenhuma categoria específica como artista, mas exploro o tema dos insectos, que me dá pano para mangas.

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De onde vem esse fascínio pelos insectos?
Conheces a história do elefante e do rato? O rato é uma coisa tão pequena, que não faz mal nenhum ao elefante, e mesmo assim ele tem medo dele. Acho que as pessoas são um pouco assim com os insectos. É o paradigma do medo: uma criatura que está ali e que, sem fazer mal nenhum, te provoca medo. Podes não ter medo de uma aranha, mas se calhar tens medo de uma centopeia… há sempre um insecto que assusta as pessoas. Eles estão em todo o lado. Tens as fábricas repletas de pessoas, como as formigas. Tens as lindas borboletas que são como as modelos que desfilam na passerelle. Consegues criar metáforas para tudo com os insectos e eu gosto muito de explorar isso. Sou a menina dos bichos!

Fala-me sobre o projecto Escaravelho.
A Escaravelho é uma editora independente e fez um ano há pouco tempo. Começou com a minha vontade de fazer edição independente e lançar fanzines. A primeira fanzine que fiz, BICHO, é de fotografia macro de insectos em formato exploratório. Representa muito o que eu gosto nos insectos, esse tal paradigma do medo. Um bicho visto de longe afasta-te, mas se estiver perto aproxima-te. Consegues quebrar essa linha e isso para mim é muito interessante. A abstração da fotografia contradiz esses medos. Ao criar a Escaravelho, tentei criar uma identidade para toda esta temática. O Escaravelho é um insecto que resiste e persiste, é difícil mandá-lo embora. Ele escaranfuncha a madeira, como eu, fazendo a ligação de tudo o que eu procurava para o nome da editora. Para além das 8 edições do BICHO, a Escaravelho já lançou um livro infantil chamado “A lagarta”, uma fanzine chamada “Dune” da autoria de Cátia Marcelino, uma fanzine chamada “Bicho quer ser gente” com textos do Luís Marques da Cruz, que é uma compilação de uma rúbrica que fiz para a Preguiça Magazine. São ilustrações viradas para a crítica social e para a condição humana. Tenho também uma série de gravuras chamada “My pets”, que são os meus animais de estimação.

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Qual é o teu tipo de arte preferido?
O que mais prazer me dá é a gravura- aquele espaço de tempo em que estou a escavar, que estou a trabalhar linóleo ou madeiras, PVC, borrachas, tudo o que encontro. Adoro explorar materiais diferentes e isso dá-me muito gozo. Gosto muito do erro. Também gosto muito de fazer os livros infantis e ver o olhar das crianças quando leem as histórias.

A Pop-up Radio foi um acontecimento ímpar. Qual o balanço que fazes da primeira edição?
É um projecto que começou numa mesa de café. Uma pop-radio é uma adaptação do conceito de pop-up store à rádio. Consiste em abrir uma rádio durante um dia, fazer uma agenda apelativa para todos mostrar o que existe por aqui. É uma rádio de porta aberta em que as pessoas podem entrar, interagir com a emissão e ver como as coisas funcionam. No fim do dia, fecha a emissão. Voltará a abrir portas enquanto houver vontade de fazer a coisa acontecer. Nasce, acontece e desaparece para voltar a aparecer noutro sítio. O balanço da primeira edição é muito positivo, e já está prometida uma nova edição com caras novas e programas novos. Stay tuned!

Quais são os planos para o futuro da Escaravelho?
Neste momento pretendo que cresça e apareça em mais sítios. A Escaravelho está a trabalhar em parceira com o Projeto UIVO, um projeto que visa a inclusão social. Estamos a trabalhar para fazer uns livros para crianças pequeninas, com histórias viradas para a inclusão e para a aceitação da diferença. Em breve estarão também disponíveis novas edições do BICHO, assim como uma edição deluxe. Entretanto há sempre ilustrações e gravuras a sair, assim como workshops a acontecer.#01bichoquersergente copyOnde podemos encontrar os teus trabalhos?
A Escaravelho marca presença em feiras com frequência. Para comprar algum dos trabalhos podem ir ao site, ao Facebook ou enviar um e-mail. Somos uma editora aberta e toda a gente pode contactar a editora para criar ou pedir ajuda com qualquer coisa. A Escaravelho pretende espalhar-se como insectos. Quem tiver curiosidade e vontade de fazer ou apenas necessitar de ajuda com algum projecto será recebido de braços abertos.

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